
A utilização da eletricidade para o aquecimento de água é uma característica do sistema energético brasileiro. Isso se deve, fundamentalmente, ao baixo custo de geração da hidroeletricidade e à carência de combustíveis fósseis no território. Estima-se que 72% das residências do país utilize o chuveiro elétrico para esquentar a água do banho, sendo que este índice chega a quase 100% nas regiões Sul e Sudeste, onde o clima é mais frio.
Segundo o livro Um Banho de Sol para o Brasil, o chuveiro responde por 18% da demanda energética brasileira nos horários de pico – entre 7h e 7h30, e 18h30 e 19h. Nessa faixa horária, a energia gerada pelas centrais hidroelétricas não é suficiente para abastecer a demanda e são acionadas as poluentes centrais termoelétricas. A obra escrita por Délcio Rodrigues e Roberto Matajs (editada pelo Instituto Vitae Civilis), aponta que aproximadamente 6% do consumo total de energia do país fica por conta da utilização do chuveiro elétrico (algumas fontes falam em até 10%). Em uma residência, esse aparelho responde em média por 30% da conta de luz.
Apesar disso, o chuveiro não sofre concorrência no país por ser um produto barato, ao alcance de toda a população. No mercado, podem ser encontrados por preços a partir de R$ 20,00. A comodidade na instalação dos aparelhos e no uso da eletricidade também dificulta a remoção do hábito de uso de chuveiros, que podem ser vantajosamente substituídos ou combinados com a energia solar.
No caso do aquecimento de água, não se trata de construir painéis fotovoltáicos (que transformam a energia solar em eletricidade), mas painéis térmicos, ou coletores solares. Esses permitem aquecer água para uso quotidiano utilizando o calor do sol, sem consumo de eletricidade ou combustível. Normalmente, uma instalação solar atende a 70% da necessidade de água quente de uma residência. O resto pode ser completado com sistemas elétricos ou a gás.
Citada pelo Plano Nacional de Energia 2030 (publicado pelo Ministério de Minas e Energia em colaboração com a Empresa de Pesquisa Energética), a especialista Elizabeth Duarte Marques Pereira defende que o aproveitamento da energia solar térmica, através de instalações de aquecimento solar de pequeno, médio e grande portes, tem se mostrado uma solução técnica e economicamente viável, tanto para o consumidor residencial, quanto para as concessionárias de energia. Nas residências, a substituição dos chuveiros elétricos pode representar grande economia de energia e permite às concessionárias maior estabilidade, já que a demanda no horário de ponta pode atingir até cinco vezes a média de potencial requerida.
Além disso, o uso de aquecedores solares pode contribuir para reduzir a emissão de CO2 por parte do setor elétrico brasileiro. Vanessa Taborianski, membro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, explica em sua tese de mestrado que os aquecedores solares lançam no ambiente menos de 60% do CO2 e do metano (CH4) emitidos pelos chuveiros, mesmo considerando sistemas complementados com eletricidade.
No entanto, de acordo com pequisa feita em 2005 pela Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia), apenas 11,7% dos brasileiros estão predispostos a substituir o sistema de aquecimento de água elétrico pelo solar. A maioria, 25,3%, disse não querer mudar, 8,8% afirmaram que depende do custo e 9,6% não responderam ou não sabiam. Segundo os dados, publicados em 2007, a região Sudeste apresentou o maior percentual de pessoas que aceitariam a mudança e a região Sul o menor.
A revista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) publicou em março deste ano reportagem sobre o uso de sistemas híbridos de aquecimento de água. Neste caso, ocorre a combinação do aquecimento solar com o chuveiro elétrico, que é acionado apenas em caso de necessidade. Para discutir o seu funcionamento foi criada uma comissão no Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial (Inmetro). Segundo o Idec, o uso do sistema híbrido vem crescendo devido ao seu emprego em projetos habitacionais populares – como os desenvolvidos em São Paulo e Minas Gerais.
Neste sistema, o aquecedor e o chuveiro elétrico são instalados e o usuário só precisa acionar o segundo quando o dia estiver chuvoso ou frio. A ONG Sociedade do Sol, também ligada a projetos populares, propõe a utilização de um dimmer para regular o aquecimento do chuveiro. Uma terceira possibilidade, bem mais cara, é o chuveiro eletrônico, que vem com um sensor de calor e um dimmer automático. Basta o consumidor ou o fabricante programar a temperatura e a vazão, e o chuveiro faz o resto do serviço, ou seja, quando necessário, complementa o aquecimento da água que chega do equipamento solar com a resistência elétrica.
Segundo dados do Idec, o preço dos sistemas de aquecimento solar no mercado ainda é alto, apesar de haver caído 32% de dois anos para cá. Pode-se encontrar produtos, com capacidade média de armazenamento de 300 litros, com preços que oscilam entre R$ 800,00 e R$ 3,5 mil. Nem a isenção fiscal (o equipamento não paga o Imposto sobre Produto Industrializado - IPI, nem o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços - ICMS) conseguiu baratear o sistema a ponto de disseminar sua utilização. Em 2008 havia apenas 4,5 milhões de metros quadrados de placas solares no país, o que corresponde a cerca de 800 mil residências (ou 1,78%), segundo o Dasol/Abrava (Departamento Nacional de Aquecimento Solar da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionada, Ventilação e Aquecimento).